Tailândia Norte – Chiang Mai e Chiang Rai

setembro 4, 2018 blogdoguru No comments exist

Saindo de Bangcoc rumo ao norte, o viajante encontra um reduto mais tranquilo em meio a montanhas, florestas e templos especiais.

No norte da Tailândia, as coisas são diferentes. O ritmo é outro, mesmo na segunda maior cidade do país. Ali a cultura, a comida, as tradições, o dialeto e até mesmo as temperaturas (mais frescas!) são bastante diferentes do restante do país. Nesta região montanhosa e tomada por selva, os principais atrativos são parques nacionais, sítios históricos e templos budistas (alguns bastante inusitados). Estamos oficialmente no antigo Reino de Lanna, que perdurou entre os séculos 13 e 18 – quando se tornou parte do Sião, futura Tailândia.

As duas maiores cidades do Norte são Chiang Mai e Chiang Rai, antigas capitais do reino. Hoje elas costumam entrar em um roteiro básico pela Tailândia por conta do contato com a natureza e com a espiritualidade budista. Elas têm aeroportos que conectam bem a região a Bangcoc e outras cidades do país. Por isso, voar com companhias low cost é a melhor forma de chegar, ainda que muita gente opte pelo trem que vem da capital até Chiang Mai em até 14 horas (com opção noturna).

Cinco noites na área é um bom tempo para desacelerar depois da bagunça de Bangcoc. Há quem faça Chiang Rai como bate-volta de um dia a partir de Chiang Mai, mas definitivamente não vale a pena – a distância entre elas é grande, de 300 quilômetros. Dá para fazer tudo por conta própria, mas contar com o apoio de pacotes turísticos contratados ainda no Brasil ajuda a deixar mais confortável a questão de transporte e dos passeios em si, incluindo acompanhamento de guia.

Chiang Mai

Sam é um monge de 18 anos que estuda na universidade budista Mahamakut. Todo dia, ele acorda às 5h, sai para recolher o desjejum oferecido pela população e depois retorna para estudar. O almoço é servido cedo e depois ele não come mais nada até a manhã seguinte, como mandam os preceitos monásticos. Mas isso não faz dele um jovem menos comum: Sam aprendeu a falar inglês para poder entender as músicas de Taylor Swift. Parte de seu dia é dedicado a conversar com os turistas, numa troca cultural e num treino da língua. Essa é a ideia do programa Monk Chat, que acontece em vários templos de Chiang Mai: a ideia é que turistas e monges estudantes possam se sentar juntos, sem hora marcada nem nada, apenas para conversar sobre budismo, cultura tailandesa e qualquer outra coisa que lhes venha à mente.

Wat Chedi Luang
Wat Chedi Luang

Conheci Sam no Wat Chedi Luang, que fica no centro histórico de Chiang Mai, um miolo repleto de ruelinhas interessantes e rodeado por muralhas e fosso. Trata-se de um dos mais famosos entre os 300 templos da cidade – que, com a mesma quantidade de Bangcoc, mas muito menor em tamanho geográfico, ficou conhecida como a capital espiritual da Tailândia. O Chedi Luang é a antiga morada do Buda de Esmeralda que hoje está no Grande Palácio de Bangcoc; agora, seu grande destaque é a grandiosa estupa em estilo tradicional do Reino de Lanna (século 15), com quase cem metros de altura e parcialmente destruída por um terremoto.

Mas o endereço mais sagrado de Chiang Mai é o douradíssimo Wat Phra That Doi Suthep, do século 14. No topo de uma montanha mais afastada do centro, a escadaria até lá tem 300 degraus, compensados pela vista (que, aliás, pode ser afetada no período de queimadas, quando o céu fica bastante enfumaçado, especialmente entre fevereiro e abril). A importância do lugar é porque, diz a lenda, um elefante que carregava um osso de Buda teria morrido bem ali, após muito esforço para subir o monte. O templo fica no Parque Nacional Doi Suthep-Pui, que reúne cachoeiras, cavernas, trilhas para caminhada e pedalada e áreas de camping a mais de mil metros de altitude. Ainda para ver a natureza tailandesa à flor da pele, vale conhecer o Parque Nacional Doi Inthanon, passeio de bate e volta para a montanha mais alta do país, com 2.565 metros de altitude. A cem quilômetros da cidade, cachoeiras e povoados são os principais atrativos por ali.

Wat Phra That Doi Suthep
Wat Phra That Doi Suthep

Mas é de noite que Chiang Mai parece ganhar ainda mais vida. Depois que o sol se põe, o Night Bazaar toma conta das ruas fora do centro histórico, com barraquinhas que vendem todas aquelas bugigangas tipicamente tailandesas e pechincháveis, ocupando também algumas galerias cobertas e outras a céu aberto. Por ali, é bem bacana jantar no Ploen Rudee, uma espécie de food park ao ar livre com vários estandes de comida, incluindo pizza, hambúrguer, churrasco e, claro, pratos tailandeses. É preciso provar o khao soi, receita típica da região, que consiste em uma sopa de leite de coco, curry, macarrão frito à base de ovo e alguma proteína. O espaço ainda tem um pequeno palco para música ao vivo, cadeiras de massagem e barracas de artesanato. Durante o dia, vale também esticar até o Warorot Market, que reúne todo tipo de temperos, especiarias e comidas tradicionais pertinho do Rio Mae Ping – cujas margens abrigam restaurantes charmosos.

thai food

Comida, aliás, é assunto sério em Chiang Mai. Um dos programas mais populares entre os turistas são as aulas de culinária, como as da Thai Farm Cooking School, que fica na zona rural, a cerca de 20 quilômetros da cidade. No caminho, os alunos param em um mercado local para aprender sobre os ingredientes e em seguida fazem um tour pela horta orgânica da escola para colher vegetais, ervas e frutas. Todo mundo bota a mão na massa para preparar seis receitas, como curry, salada de papaia e pad thai, com a oportunidade de prová-las no almoço.

Também muito comum por aqui são os passeios que envolvem animais, como elefantes e tigres. A questão é polêmica, pois quase sempre está relacionada a maus tratos – portanto, é sensato evitar qualquer atração que inclua shows, montaria/trekking e interações em geral. Nessa esteira de conscientização, muitos lugares se anunciam como santuários de elefantes resgatados, mas antes de escolher visitar, pesquise bem. O ideal é que os bichos circulem soltos em uma grande área natural e que a aproximação com turistas não passe de dar comida ou banho. É assim no Elephant Nature Park, onde os visitantes podem ficar meio dia ou um dia inteiro observando e ajudando a cuidar dos animais.

Dica: Quem já cansou da mercadoria padronizada dos mercados tailandeses pode encontrar produtos mais autênticos no distrito de Sankamphaeng, onde é possível ver de perto os artesãos trabalhando. Lá estão as cerâmicas da Baan Celadon, os tecidos da Thai Silk Village (que tem uma área dedicada a mostrar as etapas da produção da seda e também sua história desde os tempos da famosa Rota da Seda), as joias de prata da P. Collection e os tradicionais guarda-chuvas de papel e bambu da Bo Sang.

A Paz do Norte

Pato assado com molho de café, curry verde com camarões, sopa de frango com leite de coco, salada de bife grelhado. O menu é farto e o chef Tor, formado em gastronomia tailandesa, vai nos ensinar a preparar cada um dos pratos. O dia começa cedo: antes da 7h, participo da oferenda aos monges, que vêm buscar comida para o desjejum em troca de bênçãos. Depois, vamos ao mercado local para aprender sobre os ingredientes da culinária tailandesa – alguns nunca antes vistos, outros em versões bem diferentes das que conhecemos. Na parte de comidas prontas, não dá para identificar quase nada, mas é uma boa oportunidade para provar a linguiça de porco sai oua, típica do Norte e feita na brasa. De volta ao hotel, uma cozinha especial nos aguarda para o preparo dos pratos, que depois viram um almoço cheio. A aula de culinária é uma das experiências mais bacanas no resort Four Seasons de Chiang Mai. Incrustado entre campos de arroz em um distrito tranquilo a 40 minutos da cidade, o hotel eleva à máxima potência a ideia de que o norte da Tailândia é para desacelerar e se conectar consigo mesmo. Além de preparar sua própria comida, você também pode experimentar as criações do restaurante Khao, focado na culinária da região – onde o arroz pegajoso (sticky rice) é o acompanhamento comum nas refeições, em vez do arroz-jasmim que domina o restante do país. As especialidades do menu são o camarão gigante grelhado, o porco cozido lentamente em panela de barro e o crispy de peixe com tangerina. As 99 acomodações seguem o estilo e a arquitetura da região, com obras de arte selecionadas e autêntico mobiliário tailandês, seja na categoria Pavilion, com varanda voltada para os arrozais ou os jardins, seja nas villas com piscina privativa, ou ainda nas imensas residências de até quatro quartos. Os hóspedes podem participar de uma série de atividades, como plantio de arroz, passeios de bicicleta, tour pelos templos, aula de muay thai, sobrevoo de balão, rafting, ioga, meditação e muito mais. O spa é imperdível, com tratamentos que se baseiam em antigos rituais tailandeses, com ervas, especiarias e óleos nativos. A piscina de bordas infinitas se debruça sobre os campos de arroz, enquanto uma menor, um nível abaixo, garante um recanto de sossego. Para fechar o dia, os trabalhadores do hotel se despedem do sol com um ritual nos arrozais. § Four Seasons Chiang Mai.

foto

CHIANG RAI

Depois de uma imersão por vários templos em Bangcoc e Chiang Mai, talvez comece a ficar tudo bem parecido. Mas a verdade é que a gente fica meio atordoada com o que vê em Chiang Rai: Minions e Michael Jacksons, e chifres diabólicos e esculturas fálicas em meio a estátuas de Buda e regras de vestimentas rígidas comuns a qualquer outro templo. A cidade costuma ser menos valorizada que a vizinha Chiang Mai, mas essa criatividade inusitada que floresce nela é um motivo interessante para uma visita mais demorada.

templo branco

Tudo começa no Templo Branco, cartão-postal inaugurado em 1997 pelo renomado artista local Chalermchai Kositpipat, espécie de Romero Britto tailandês. Bizarro e ao mesmo tempo hipnotizante, o Wat Rong Khun, nome oficial do templo, é uma verdadeira obra de arte contemporânea, que embasbaca logo de cara com sua estrutura cheia de detalhes e pedacinhos reluzentes de vidro. Para entrar nele, o visitante atravessa uma ponte, passando por cima de mãos sofridas e deformadas que remetem ao inferno. Uma vez lá dentro, é proibido fotografar – e o elemento-surpresa é mesmo a graça do negócio. Mas só como teaser: nas paredes, as representações do bem e do mal típicas do budismo ganham versões pop e modernas, com imagens de Minions, Matrix, Bob Esponja, Homem-Aranha e o que mais a imaginação do artista permitir… Dá para ver mais obras muito loucas dele no museu anexo – e nem mesmo o banheiro está a salvo de intervenções.

Já o mais recente Templo Azul, ainda com partes em construção, é obra de outro artista bastante colorido, aprendiz de Kositpipat. Oficialmente chamado de Wat Rong Suea Ten, o azul do apelido é por conta das trabalhadíssimas paredes internas, que refletem na bela estátua branca de Buda. Por fora, predominam os detalhes em dourado, com dois dragões recepcionando quem sobe as escadas da entrada. Mas surpreendente mesmo é o Black House Museum (ou Baandam Museum), criação de mais um artista local cheio das ideias, Thawan Duchanee. Ele retrata conceitos do budismo com um estilo bastante inusitado e macabro, que envolve madeira, chifres, falos, estátuas tribais, pele de animais e crânios. O museu ocupa uma boa área com vários prédios, alguns com arquitetura típica do norte tailandês, outros com um toque futurista, abrigando ambientes que reproduzem cômodos domésticos.

Como boa cidade tailandesa, Chiang Rai também abriga um mercado noturno em suas ruas, com tudo aquilo que você já conhece. A diferença é que este tem uma praça de alimentação bem rústica para comer e um restaurante mais ajeitado, com palco onde acontecem apresentações de dança típica e música ao vivo. Aos sábados e domingos de noite, é a vez da Walking Street, feira que ocupa a Thanalai Road com produtos, comidas e frequentadores bem mais locais.

A margem do Rio Kok guarda lugarezinhos charmosos para comer e se hospedar. O hotel-butique The Legend é boa opção para quem quer descansar à beira da água, com quartos que se espalham em um jardim cortado por um rio artificial. Na outra margem, o café e bistrô Chivit Thamma Da é um oásis cheio de charme, com mesas ao ar livre em um belo jardim. É bom para café da manhã e almoço – o menu preza por ingredientes frescos, orgânicos e sazonais, transformados em receitas tanto internacionais quanto tradicionais, como o porco com curry típico do norte.

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Os arredores de Chiang Rai também são férteis em passeios. Para quem gosta de tomar chá ou tirar fotos, a plantação da empresa Choui Fong é uma parada interessante. Os campos de cultivo ocupam terraços em montanhas com mais de 1.200 metros de altitude, a 40 quilômetros da cidade, com variações como chá verde, preto e oolong. Você pode circular pelos campos, que garantem paisagens bem bonitas, e visitar a loja-cafeteria, onde a especialidade é, obviamente, o chá. Ela está no meio do caminho para quem segue rumo ao Triângulo Dourado, outra atração comum a partir de Chiang Rai.

Nos arredores da vila de Sop Ruak, já na cidade de Chiang Saen, o encontro dos rios Mekong e Ruak marca a tríplice fronteira entre Tailândia, Mianmar e Laos. No Golden Triangle Park, do lado tailandês, há plataformas de onde é possível ver os três territórios, como a que fica aos pés das ruínas do milenar templo Phra That Phu Khao. Dá para fazer passeios de barco para visitar uma feirinha turística na parte do Laos – naquela área o visto não é necessário, mas não se pode seguir para o resto do país vizinho a partir dali.

Interessante saber que essa região, há mais de cem anos, era conhecida também como Triângulo do Ópio, a maior produtora da droga no mundo. Tudo mudou quando a família real resolveu investir na área, transformando as plantações de papoula em fazendas de café e macadâmia, por exemplo. A história do ópio é abordada em Sop Ruak, a vilinha que foi o epicentro das atividades ilegais na época. A House of Opium exibe instrumentos originais usados na plantação e colheita da papoula, no comércio e no uso da droga. Já o Hall of Opium, um pouco mais afastado, tem exibições modernas e interativas, cobrindo a história da droga e as questões relacionadas ao vício.

Cabível em um bate-volta, o Triângulo Dourado não demanda um pernoite, a não ser que seja para viver a experiência de um “acampamento cinco estrelas”, como o Four Seasons Tented Camp. A dez minutos do Golden Triangle em si, o resort à beira do rio tem pacotes de três ou quatro noites em 15 tendas de luxo no melhor conceito glamping (glamour + camping), com passeios pela região, spa, piscina de bordas infinitas e encontro com elefantes.

Em Chiang Rai, é igualmente polêmica a questão das atrações com elefantes, como os chamados “safáris” ou trekkings. Mais uma vez, caímos na discussão dos maus tratos e da exploração turística desses animais, em quantidades cada vez menores na Tailândia. Por outro lado, a cidade também tem um santuário ético para quem quiser vê-los (de longe), sem showzinhos nem montarias. O Elephant Valley é filial de um grande projeto no Camboja, que busca recuperar animais que trabalhavam na indústria madeireira ou turística, de forma que eles vivam soltos em uma grande área delimitada – pois não podem mais ser devolvidos à natureza – sem que dependam de pessoas. Dá para passar a manhã ali ou emendar a tarde trabalhando como voluntário na manutenção e nos cuidados da área.

Também causa debate a visita a comunidades étnicas que vivem nas montanhas nos arredores de Chiang Rai – como é o caso das “mulheres-girafa”, oficialmente uma tribo da etnia karen, refugiada do vizinho Mianmar. É verdade que o turismo é a forma de sustento dessas pessoas, mas há muitas discussões sobre a forma exploratória como isso acontece, em que as mulheres acabam confinadas ali para entreter visitantes com seus pescoços aparentemente alongados com argolas. De qualquer forma, a região Norte, a exemplo do país como um todo, tem tantas belezas naturais e históricas para preencher um roteiro que qualquer atividade “suspeita” pode ficar facilmente de fora. Isso certamente enriquecerá ainda mais uma viagem pela Tailândia – esse lugar cheio de contradições, mas com um poder transformador enorme. 

Fonte: Revista Viajar Pelo Mundo

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