Roma e Toscana – Itália com Amor – parte 2 de 2

março 12, 2019 blogdoguru No comments exist

Toscana

O beagle cavava e remexia a terra como louco. Não demorou muito até que seu dono viesse com uma espécie de pá e retirasse do buraco de terra remexida uma pequena e preciosíssima bolinha: uma trufa pouco maior que uma bola de gude. A caça às trufas é um dos “esportes” por excelência da Toscana – e um delicioso e divertido passeio para incluir na viagem. Na propriedade Savini Tartufi, na minúscula Forcoli, a experiência custa € 35 e termina, obviamente, com uma deliciosa degustação das relíquias “caçadas”.

O desvio a Forcoli para caçar trufas só funciona para quem está de carro; as estradas são boas e bem sinalizadas, geralmente atravessando belos campos e vinhedos. Explorar a região em trem também é uma bela, fácil e despreocupada maneira de curtir algumas das mais lindas cidadezinhas italianas.

Na hora de começar a planejar sua viagem pela Toscana, tenha em mente alguns detalhes: se for alugar um veículo, faça isso após deixar Florença, já que os hotéis com estacionamento no centro histórico são raríssimos e entrar e sair da cidade dirigindo toma muito tempo – além de algumas áreas serem proibidas para carros, sujeitos a multa. Fora isso, eleja duas cidades como base para pernoitar e, a partir delas, opte por passeios em estilo bate-volta (fazê-los de trem é extremamente fácil e prático). É melhor do que ficar cada noite em um lugar diferente. Eu escolhi Florença e a comuna de Rapolano Terme, na província de Siena, o que me permitiu chegar em poucos minutos a diferentes e charmosos vilarejos.

Ponto de partida: Florença

A melhor maneira de explorar a maior cidade da Toscana é, definitivamente, a pé: Florença é um profundo e constante convite à passeggiata, como dizem os italianos. Boa parte do centro é plana, há bastante sinalização para as principais atrações e até perder-se, eventualmente, em suas ruelas é uma delícia.

Gallerie Degli Uffizi
Gallerie Degli Uffizi

Desenvolvida às margens do Rio Arno, até hoje cruzado ali por pontes renascentistas, a cidade de mais de 2 mil anos abriga aproximadamente 40% de todo o acervo artístico italiano – parte em seus espetaculares museus, parte em suas ruas. Apesar de tão farta em passeios, Florença é pequena e muitos de seus atrativos se concentram no centro histórico ou bem próximo dele. Assim, reserve pelo menos três dias para explorá-la. Dentre seus inúmeros museus, vale conferir duas das galerias mais concorridas do mundo: a gigante Gallerie degli Uffizi e a Galleria dell’Accademia, ambas tomadas de Da Vincis, Michelangelos e Botticellis, entre outros gênios – na última, fica a escultura Davi, obra-prima de Michelangelo. São imperdíveis e demandam tempo para serem visitadas.

Jardins do Palazzo Pitti
Jardins do Palazzo Pitti

Do outro lado do Arno, o Palazzo Pitti já valeria só pelos seus encantadores jardins e pelo prédio projetado pelo arquiteto e escultor Brunelleschi – mas seu acervo de Rafaellos, Ticianos, Caravaggios e Tintorettos é tão farto e impressionante que visitá-lo também é programa imperdível. Se tiver tempo, programe ainda ida até o Museu do Bargello, a Ópera e a espetacular Capela dos Médici em San Lorenzo. Com mais fôlego, vale subir a colina para chegar até um dos lugares mais espetaculares de Florença: a Piazzale Michelangelo (marcada por uma réplica do Davi de Michelangelo), que tem a mais bonita vista panorâmica da cidade, com o rio, as torres, os palácios e o imenso Duomo no horizonte.

Duomo de Florença
Duomo de Florença

Mas algumas das atrações mais incríveis de Florença não cobram ingresso: suas praças e pontes, por exemplo, constituem parte de sua beleza. Um provável começo de passeio é o majestoso Duomo, onipresente no horizonte da cidade. A catedral de Florença, de gigante cúpula e peculiar arquitetura gótica, levou séculos para ser finalizada e, apesar de toda a imponência externa, tem um interior bastante simples. Seus maiores atrativos são a cripta e a genial cúpula de Brunelleschi – ver a cidade lá do alto (€ 8) é daquelas vistas difíceis de esquecer um dia.

Basilica di Santa Croce
Basílica di Santa Croce

A passos do Duomo, o coração da cidade é a sempre movimentada Piazza della Signoria, que abriga o Palazzo Vecchio, além de esculturas renascentistas, como o célebre Netuno de Ammannati e mais uma réplica do Davi de Michelangelo. Da praça, a partir de suas ruelas sinuosas, chega-se a sua mais bonita igreja: a Basilica di Santa Croce (€ 5). A construção gótica franciscana do século 13 é tão linda que, diz a lenda, o escritor francês Stendhal teria tido um colapso, inebriado por tanta beleza. Sua cripta guarda os restos mortais de filhos ilustres da cidade, como Galileu, Michelangelo e Maquiavel.

Ponte Vecchio
Ponte Vecchio

Agora é hora de chegar à mais célebre ponte italiana: a Ponte Vecchio, cartão-postal de Florença. Teria sido inicialmente de madeira e reconstruída como conhecemos em 1345 – e, dizem, foi poupada dos bombardeios durante a Segunda Guerra por ordem expressa de Hitler. Hoje, suas espremidas casinhas abrigam inúmeras joalherias e uma ou outra lojinha de suvenir. Sempre cheia durante o dia, merece também a visita à noite, quando se mostra mais tranquila, mas igualmente bela.

Caminhando entre as movimentadas Via dei Tornabuoni e Via Strozzi, o design se reveste de luxo nas butiques de Armani, Cavalli, Bulgari e Ferragamo. Se a Florença de outrora é um impressionante museu a céu aberto, esse miolinho, nos arredores da Piazza Santa Trinitá, representa bem a Florença contemporânea – tanto que é chamado hoje de lifestyle district, com descolados bares, hotéis e restaurantes. A bela cidade é território fértil não apenas para quem gosta de compras, mas também de comer bem, concentrando restaurantes renomados, como o Pinchiorri, premiado com três estrelas Michelin, e locais tipicamente italianos, como a Trattoria Ponte Vecchio, que oferece a clássica culinária fiorentina. Nem tente resistir!

Pelas estradas toscanas

Deixando Florença, é hora de cair na estrada para explorar os pequenos vilarejos – os borghi – lindamente encarapitados no alto das montanhas. O motivo tem justificativa geográfica: a região era basicamente um pântano, vítima de constantes dilúvios. Adotei como segunda base da minha viagem exatamente um desses lugares. O adorável hotel Laticastelli Country Relais, nas colinas de Rapolano Terme, foi perfeito para seguir minhas explorações: dali, eram poucos minutos até chegar a Siena, San Gimignano, Cortona, Pienza, Arezzo, Pisa – ou, ainda, à Chiantigiana, a bela estrada cênica que percorre os férteis vinhedos da Rota do Chianti.

Hotel Laticastelli Country Relais
Hotel Laticastelli Country Relais

Só é bom ter sempre em mente o seguinte: nos vilarejos menores, a hora da sesta é sagrada e pode chegar a até três horas. Assim, não estranhe ao encontrar museus, lojas, cafés e restaurantes fechados no meio da tarde!

De Cortona a Arezzo

Internacionalmente famosa após a publicação do livro Sob o Sol da Toscana, a minúscula cidade de Cortona segue igualzinha às suas descrições: pequena, pacata e encantadora. Com pouco mais de 20 mil habitantes, é um belo passeio ao longo de um dia, juntamente com Arezzo ou Siena.

Em Cortona, não há muito o que visitar além da Piazza Signorelli, o Palazzo Casali e a Fortezza Medicea – a parada é simplesmente para contemplar sua atmosfera gostosa e os belos prédios históricos. Se estiver na hora do almoço, aposte na Osteria del Teatro e seus pratos generosos com trufas.

Dali para Arezzo, a viagem não dura sequer uma hora. Terra de cavaleiros medievais, fortalezas, anfiteatros romanos e igrejas góticas, Arezzo também desfrutou de uma dose de fama extra após o lançamento do filme A Vida é Bela, de Roberto Benigni. Antiga capital etrusca, suas ruelas sinuosas mais bonitas são ladeiras (já que a cidade fica sobre a montanha) e as mais bonitas chegam à bela Piazza Grande. Na Piazza del Duomo, a catedral vale a visita pelos vitrais e pelo famoso afresco de Maria Madalena feito por Piero della Francesca. Fora do centro, Arezzo ganha outra cara, bem contemporânea, já que foi em boa parte destruída durante a Segunda Guerra.

Piazza Grande de Arezzo
Piazza Grande de Arezzo

Se a fome bater, opções para comer bem não faltam. A Buca di San Francesco, no porão ao lado da basílica homônima, tem menus baratos a preço fixo. Para investir um pouquinho mais, o excelente menu degustação tipicamente toscano do Logge Vasari custa a partir de € 40.

De Pisa a Viarregio

Vale a pena programar-se para chegar a Pisa cedinho: ver a Piazza dei Miracoli e sua famosa torre torta com as luzes da manhã é muito diferente – e mais bonito! – do que ao longo do dia. Curtir o entorno da torre que dá nome à cidade e à catedral é grátis; quem não tiver vertigem e quiser subir para admirar a vista lá de cima paga € 15.

Pisa
Pisa

Pisa é pequena e fácil de explorar em uma manhã, por isso é perfeita para ser combinada com outras cidades. Antes de partir, pare no Caffè Federico Salza, a chocolateria mais famosa da cidade, para tomar um delicioso chocolate quente.

Lucca
Lucca

De lá, hora de seguir à encantadora Lucca, cujo plano de ruas romano é facilmente visível em seu centro histórico. Sua bela Piazza San Michele, cheia de restaurantes e lojinhas de suvenires, é um dos maiores atrativos da cidade – hoje lotada de turistas, já foi em outros tempos fórum e arena. Mas são as muralhas medievais um dos passeios mais gostosos e fazer por lá: a Passeggiata delle Mura tem quatro quilômetros contornando esta linda cidade. A Catedral de San Martino e a Piazza Anfiteatro, de casinhas em tons pastel ocupando espaço de um antigo teatro romano, completam o passeio.

É hora do almoço? Comer em Lucca é ótima pedida, seja com os pratos toscanos da antiquíssima La Buca de Sant’Antonio (que alega funcionar desde 1782) ou a ótima e barata comida da Trattoria da Leo.

Deixando Lucca após o almoço, ainda dá tempo de curtir – seja viajando de carro ou em trem – o belo entardecer na bucólica Viareggio. A cidade está na região da Versília, mas vale o desvio: a terra de Puccini conserva a antiga casa do compositor, hoje convertida em museu, e tem uma imensa ópera municipal a céu aberto. Localizada à beira-mar, ainda é destino queridinho de endinheirados da região quando a temperatura esquenta – mas curtir seu delicioso calçadão na orla sempre cheia de gente é programão o ano todo.

De Siena a San Gimignano

Misturar Siena e San Gimignano no mesmo dia é uma dobradinha perfeita. Ao lado de Florença, Siena foi parte do maior centro de produção artística do Renascimento – e por isso mesmo, eram cidades arqui-inimigas. As marcas da Idade Média ainda estão presentes em boa parte da cidade antiga – sobretudo na magnífica Piazza del Campo.

Siena
Siena

A praça, que até hoje é palco para as famosas corridas de cavalos do Palio de Siena, foi projetada em forma de leque sobre um antigo foro romano. Sua Torre del Mangia é a segunda mais alta da Itália e uma das maiores de todo o continente europeu – de lá do topo é possível ter uma vista impagável da cidade. A igreja (Duomo), de arquitetura gótica e romana mescladas, guarda em seu interior obras de renascentistas como Donatello e Michelangelo; até sua cripta é adornada com afrescos, além do chão forrado de mosaicos – expostos ao público apenas durante o verão (junho a agosto).

San Gimignano
San Gimignano

As torres compõem também uma das características mais marcantes da pequena vizinha San Gimignano, tombada como Patrimônio Universal pela Unesco. No total, são 14 delas resistindo bravamente dentro da cidade amuralhada desde os tempos medievais – mas já chegaram a ser 72. A basílica do século 12 é tomada por afrescos e sua torre está aberta para visitação (€ 4,50). Dali, a vista da cidade, das montanhas e dos campos nos arredores é belíssima. Outra opção é subir na Torre Grossa do Palazzo Comunale (€ 7,50), que também oferece um ótimo panorama – além de belíssimas pinturas medievais em sua pinacoteca.

San Gimignano
San Gimignano

Famosa por seu vinho branco Vernaccia, San Gimignano é sempre ótima opção para almoçar: boas sugestões são as massas do Il Pino e o menu do Leonetto (para quem não se importar em se afastar do centrinho), famoso pela generosa bisteca fiorentina de seu cardápio. Nos últimos tempos, a cidade ficou popular também pela Gelateria di Piazza, a sorveteria instalada na Piazza della Cisterna, eleita produtora do melhor sorvete do mundo – para mim, todo gelato italiano é o melhor do mundo!

Carrara, Colonnata e San Miniato: para esticar

Nem só das cidadezinhas mais conhecidas se faz uma bela viagem à Toscana; a região é fértil em história, boa mesa e vilarejos encantadores que valem a pena explorar.

Montahas de Mármore de Carrara
Montahas de Mármore de Carrara

Comecei a esticada por Carrara, a cidade à beira do Mar Mediterrâneo e famosa pelo mármore (foi com ele que Michelangelo esculpiu suas obras mais conhecidas, como Pietà e Davi). A matéria-prima está tão intrínseca no dia a dia local que até as faixas de pedestres por ali são feitas com ela. Os inúmeros ateliês espalhados pela cidade vendem esculturas de todos os tipos, gostos e tamanhos. Durante o verão, Carrara ganha uma cara mais badalada, com ricaços e celebridades italianas que adotam suas praias, seus museus e também seus cafés charmosos.

Quase vizinho a Carrara, o vilarejo de Colonnata ficou conhecido por um outro tipo de matéria-prima: o lardo. A gordura curtida do porco, branquíssima e de sabor semelhante ao bacon defumado, ganhou ali denominação de origem protegida e é consumida também crua, como qualquer embutido, ou ainda sobre bruschetta e canapés. O lardo vem do lombo do porco, e não da barriga, e é curado por cerca de seis meses em imensos tonéis de mármore cheios de especiarias. A cidade é minúscula, instalada no alto de uma montanha, mas vale a parada justamente para degustar a iguaria.

Lardo
Lardo

Gastronomia também é o forte da pequena San Miniato. Foi ali que a Macelleria Falaschi, casa de carnes do chef Sergio Falaschi, aberta em 1925, virou o símbolo do movimento slow food. A trufa é farta nos restaurantes locais, assim como carnes, linguiças, salames e excelentes azeites. Só o Pepenero, do chef Gilberto Rossi, já valeria o desvio à cidade para almoçar. A entrada discreta e pequenininha esconde um adorável restaurante que se revela abaixo do nível da rua, com direito a terraço de vista panorâmica para o campo toscano. Rossi serve ali os salames e linguiças feitos por Falaschi e queijos, tomates e azeites de produtores locais – a entradinha perfeita para esperar seu magistral taglioni coberto com fartas lâminas de trufas brancas.

Strada del Vino

É claro que uma bela viagem à Toscana não pode deixar de lado a riqueza e tradição de seus vinhos. Na terra dos internacionalmente famosos Chianti e Brunnello de Montalcino, difícil é decidir quais vinhedos visitar. Há alguns anos, foi criada a Strada del Vino, uma rota pensada para orientar turistas em visita às vinícolas da região. O belo vilarejo medieval amuralhado de Bolgheri, cheio de tradição literária (seu filho ilustre Giosuè Carducci ganhou o Nobel de Literatura, por exemplo), viu parte de sua história mudar por causa dos vinhos. O Sassicaia, primeiro rótulo produzido com uvas francesas Cabernet Sauvignon e Franc em terras italianas, saiu justamente dali. A Tenuta San Guido é quem anualmente produz e exporta não só o Sassicaia, como também o ótimo Guidalberto, que leva uva Merlot em sua composição. A sede na Strada del Vino é pequenininha e tem pouca infraestrutura para o turismo – mas visitas e degustações com hora marcada são muito bem-vindas por ali.

Tenuta San Guido
Tenuta San Guido

Seguindo a mesma estrada, a bela vinícola Petra é um programão: tem arquitetura contemporânea impactante, com design do premiado arquiteto suíço Mario Botta, em meio às bucólicas paisagens toscanas, repletas de vinhedos e oliveiras. Petra, que produz vinhos com Cabernet Sauvignon, Merlot e Sangiovese (destaque para o Petra IGT Toscana), fica nos arredores de outro vilarejo medieval, Suvereto, de menos de 3 mil habitantes, que também vale uma rápida parada. Pode ter certeza de que a embriaguez de vinho é menor do que a embriaguez de alma diante de lugares tão encantadores espalhados pela Toscana.

Rota dos Etruscos

A Toscana também compreende a Rota dos Etruscos, passando por cidades e vilarejos que guardam reminiscências – de impressionantes ruínas a museus – dos tempos em que a região esteve sob o domínio desse povo. A diminuta Sovana é ótimo exemplo e abriga inúmeros tesouros reunidos no parque arqueológico Cittá del Tufo. Sovana fica próxima a Volterra, outra cidade que merece a visita para explorar suas ruas estreitas e sinuosas, cheias de lojinhas e cafés, as construções medievais e os ateliês de peças em alabastro. O Palazzo dei Priori, na praça homônima, guarda a Torre do Relógio, que recebe visitantes para apreciar a vista panorâmica. O Palazzo Viti, com extensa coleção de objetos de arte dos séculos 15 ao 20, é outra atração. Mas seu Museu Etrusco Guarnacci é visita obrigatória com joias, ornamentos de ouro e incríveis urnas fúnebres decoradas.

Por Mari Campos

Fonte: Viajar pelo Mundo

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