Patagônia Argentina – El Calafate e Ushuaia (PARTE 1)

novembro 6, 2018 blogdoguru No comments exist

El Calafate: Reino de Gelo

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Na primeira vez em que ele aparece na nossa linha de visão, deixo escapar uma exclamação – e não devo ser a única, já que a plataforma de observação onde estamos, ainda na estrada, leva o sugestivo nome de Mirante dos Suspiros. À frente – longe, mas já impactante –, está o Perito Moreno, a geleira mais popstar desta parte da Patagônia argentina. Mesmo que não aparecesse à vista, os estrondos que ecoam dela não deixariam dúvidas: estamos prestes a encarar algo muito grandioso.

“Terra das geleiras” é como se autodefine a cidade de El Calafate, porta de entrada para o Parque Nacional Los Glaciares, ao redor do grande Lago Argentino. Apesar do nome da reserva, a estrada de 80 quilômetros até lá comprova que a Patagônia está longe de se resumir apenas a gelo: a paisagem que domina metade do caminho é a estepe patagônica, formada por arbustos baixos e espinhosos – como o próprio calafate, cujo fruto roxo e doce dá nome à cidade. Em seguida, o cenário árido começa a dar lugar a uma vegetação mais abundante – são os bosques de árvores vistosas, conhecidas como ñires e lengas. E parece até contraditório que haja tanto verde assim, tão perto de uma imensa massa de gelo.

E então, em meio ao clima de suspense, chegamos a ele. Com 60 metros de altura e cinco quilômetros de comprimento, o Perito Moreno não é o maior glaciar do parque, mas certamente é o mais popular e o que conta com melhor estrutura. Há passarelas que levam a plataformas de observação em diferentes níveis, chegando bem perto do paredão branco. É onde todo mundo se coloca a postos, câmeras em punho, aguardando o espetáculo que pode acontecer a qualquer momento: o desprendimento de blocos de gelo, que, ao cair na água, parecem trovejar. De tempos em tempos, o show é ainda mais impressionante: é quando a água do lago, represada pelo Perito Moreno, começa a exercer pressão sobre o gelo, “cavando” túneis que provocam desabamentos ainda maiores nas bordas da geleira. O último aconteceu em 2008 – em 2006, 2004 e 1988 também houve rupturas.

Para chegar ainda mais perto do Perito, fizemos um “safári náutico” com duração de uma hora, navegando pelo trecho do lago conhecido como Braço Rico. É grande a disputa por um lugar na parte externa do catamarã. Quem quiser uma experiência mais imersiva e menos tumultuada pode fazer caminhadas guiadas por cima da geleira, com o uso de grampos acoplados aos sapatos. De nível moderado, o percurso do minitrekking dura duas horas e permite ver rachaduras e “lagoas” ultra-azuis que se formam na superfície do gigante. No final, brinda-se com um copo de uísque e gelo coletado ali mesmo. Ainda sobre o glaciar, também há a opção Big Ice, com trajetos difíceis de quatro horas – só para os mais fortes.

O que são geleiras?

Geleiras – ou glaciares – são grandes massas formadas por neve acumulada e compactada ao longo de centenas ou milhares de anos. Por ação da gravidade, elas estão em constante (e lento) movimento, “escorrendo” das montanhas ou espalhando-se pelo solo. No Parque Nacional Los Glaciares, as geleiras desembocam no Lago Argentino, descendo desde o Campo de Hielo Patagónico Sur, um manto de gelo com área de 12.550 km² situado na Cordilheira dos Andes.

Outros passeios

Estancia cristina: três horas de navegação pelo Braço Norte do Lago Argentino (passando pelo glaciar Upsala) levam a esta propriedade fundada por uma família inglesa, onde é possível fazer trekkings e passeios em 4×4.

Passeio de quadriciclo no Cerro Huyliche: depois de subir a montanha em veículos 4×4, o percurso pelo Labirinto de Pedras passa a ser feito em quadriciclos, com vistas do Lago Argentino, de El Calafate e dos Andes.

Cerro Frías: o passeio em veículo 4×4 até o alto do Cerro Frías (1.030 metros de altitude) tem vistas do monte Fitz Roy e das Torres del Paine (no Chile).

Bosque petrificado la leona: a 115 quilômetros de El Calafate pela Ruta 40, encontra-se o Cerro Los Hornos, onde uma caminhada de três horas revela troncos de árvores e ossos fossilizados – vestígios de uma vasta floresta que já existiu na região.

Cavalgada pela Fazenda lago roca: o dia cavalgando nesta estância a 42 quilômetros de El Calafate tem vistas do Perito Moreno, do Lago Roca e do Cerro Frias, além de almoço típico – bifeada criolla e mate.

Ao Perito e além

Será difícil que alguma coisa impressione mais do que o primeiro contato com o Perito Moreno. Mas sim, há mais para ver e fazer no parque nacional e em El Calafate. Há desde navegações até saídas de pesca, caiaque e cavalgadas, que duram de duas horas a um dia inteiro – o tempo de locomoção, em muitas atividades, é grande.

Do Puerto de Punta Bandera (a 50 quilômetros de El Calafate), embarcamos em um passeio um tanto mais exclusivo, que permitiria chegar perto de outras duas geleiras sem a necessidade de nos acotovelarmos com outros passageiros por um clique decente – e ainda com a oportunidade de provar as especialidades gastronômicas da região. A expedição gourmet a bordo do cruzeiro Leal navega, ao longo do dia inteiro, pelo Braço Norte do Lago Argentino, aproximando-se do glaciar Upsala, o mais extenso do parque, com 53 quilômetros, e do Spegazzini, o mais alto, com até 130 metros. No primeiro, testemunhamos mais desprendimentos estrondosos – com sorte e paciência, consegui fotografar e filmar a sequência da queda. Esses grandes blocos de gelo à deriva, com apenas 15% de seu corpo acima da superfície, ganham o nome de iceberg. As águas por aqui são salpicadas deles, todos azulíssimos por conta da refração da luz solar no gelo.

Apenas o vento frio e a fome são capazes de trazer os passageiros de volta para dentro do barco. Servido o almoço, fica mais saborosa a vista das janelas, que sobe desde o azul da água, rumo à vegetação verdíssima no pé das montanhas, até chegar ao topo branco de neve delas. À mesa, fumegam as empanadas de cordeiro com massa crocante e recheio suculento; depois, vêm o salmão grelhado e a cazuela de cordeiro – tudo preparado ali mesmo, pelo chef a bordo. O passeio tem, ainda, desembarque e caminhada curta no Puesto de las Vacas, uma antiga estância, hoje abandonada, de onde se tem um panorama lindíssimo do Lago Argentino com os Andes ao fundo. A mesma companhia, Marpatag, também oferece cruzeiros luxuosos de duas noites a bordo do Santa Cruz, que amplia o roteiro para incluir as geleiras Mayo e Negro e navegar pelo Canal de los Tempanos até desembocar no onipresente Perito Moreno.

Vistos tão de perto, glaciares são imponentes, sim. E o poderio fica um pouco mais palpável depois que se entende melhor o que são e como se formam. Para tanto, uma visita ao Glaciarium vem a calhar. Como fica a seis quilômetros de El Calafate, há transfer gratuito de hora em hora desde a Secretaria de Turismo, no centro da cidade. Irrompendo feito um bloco de gelo no meio da paisagem desértica, o museu se propõe a investigar as geleiras por meio de maquetes, dioramas, recursos multimídia e filmes. Ali se entende como a neve vira gelo, como se empreenderam as expedições de reconhecimento e estudo, como a Terra se transformou ao longo dos anos e muito mais. Por fim, os visitantes vestem capas e luvas especiais para descer ao Glaciobar Branca, um bar todo feito de gelo glaciar – dos copos às paredes –, onde a temperatura chega a -10 ºC. Para esquentar, bebidas alcoólicas são liberadas por 25 minutos. Boa hora para pedir o licor de calafate e testar se é verdadeira a crença de que quem prova da frutinha local há de voltar à cidade. Eu diria que, se voltam, certamente é pelo Moreno.

Dedique um tempo à cidade

Mochileiros se misturam a famílias nas ruas, onde restaurantes anunciam como especialidade o cordeiro patagônico, assado inteiro em um espeto fincado no chão. Nas lojinhas, há desde alfajores de calafate e rosa-mosqueta até artesanatos estampados com as pinturas dos índios tehuelches. Na pequena Laguna Nimez, à beira da Avenida Costanera Néstor Kirchner, flamingos cor-de-rosa descansam em uma perna só ou ensaiam voos rasantes.

Localizada na província de Santa Cruz, sul da Argentina, a pitoresca El Calafate está a três horas de voo de Buenos Aires e é servida pela lendária Ruta 40, que corre por 5 mil quilômetros ao longo da Cordilheira dos Andes. A cidade de 20 mil habitantes desabrochou desde que os investimentos governamentais do casal Kirchner, seus admiradores mais conhecidos, trouxeram aeroporto internacional e estrada pavimentada. Quase tudo se concentra ao redor da Avenida Libertador San Martín, a principal via de El Calafate, onde a arquitetura em madeira quase lembra a nossa Campos do Jordão, com um cassino e um lago de brinde. Além dos hostels que abrigam jovens de mochila em turnê pela América do Sul, há também oferta para níveis de conforto mais exigentes – vide o hotel-butique Los Sauces, propriedade da ex-presidente Cristina.

O movimento é maior no verão – que, apesar do calor não dispensa as roupas impermeáveis e as botas de caminhada para os passeios. Mas o inverno, quando as temperaturas vão abaixo de zero, também tem suas exclusividades, como os parques de neve Calafate Mountain Park e Hoya del Chingue, onde é possível esquiar.

Fonte: Viajar pelo mundo

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