Nova Zelândia: a terra do Senhor dos Anéis (parte 3)

dezembro 11, 2018 blogdoguru No comments exist

Wanaka

Enquanto esperamos na fila de uma hamburgueria gourmet-orgânica, o rapaz de cabeleira desgrenhada e descalço devora o seu sanduíche vegano. Dali, com nossos hambúrgueres para viagem, seguimos até uma cervejaria artesanal e assim completamos as compras para o nosso piquenique à beira-lago. Já passou das 21h e o sol só agora começa a se pôr – é verão na Nova Zelândia. Um dia quente e comum em Wanaka, pequena cidade que atrai desde fanáticos pela turma do Frodo até trilheiros bem-aventurados, é um resumo fiel do país como um todo.

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Confira a parte 1 e a parte 2 desta matéria

Wanaka fica a uma hora de Queenstown, cidade da Ilha Sul celebrada pela paisagem alpina e pelas atividades radicais – foi ali, em Queenstown, que nasceu o bungee jump, com salto de 43 metros na ponte Kawarau. Pelas trilhas entre mata e montanha de Wanaka já passaram pés peludos e cajados mágicos. É que, juntamente com outras áreas do país, a região conhecida como Southern Lakes serviu de cenário para as trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Por isso, sobram tours temáticos para seguir os passos de Ganfald, Bilbo Bolseiro e cia. Quem vem no verão consegue aproveitar uma série de atividades ao ar livre, como caminhadas e pedaladas. No inverno, surge a chance de esquiar e fazer snowboard no Cardrona Resort (que, fora da temporada de neve, ganha circuitos de mountain bike e divertidas pistas de kart). Vinhos completam o leque de atrações em qualquer época do ano.

Cardrona Resort
Cardrona Resort

Seja qual for o passeio, a dupla formada pelos lagos Wanaka e Hawea é sempre a estrela – o primeiro é notório por conta da árvore que se ergue solitária dentro da água. Em volta deles, os Alpes do Sul que dão nome ao parque nacional ao seu redor. A área é muito procurada para trilhas (existem cabanas disponíveis para pernoite), mas a melhor forma de ter noção real do tamanho e da beleza de toda essa paisagem é vendo de cima. Para isso, e para quem tem orçamento de viagem gordo, há roteiros que combinam sobrevoo de helicóptero com caminhadas e passeios de jetboat. Existem excursões saindo do vilarejo de Makarora. A estrada de Wanaka até lá margeia o lago enquanto revela belos ângulos ao longo de uma hora.

Lago Wanaka com árvore solitária
Lago Wanaka com árvore solitária

Mas é quando o helicóptero levanta voo que os olhos de fato se enchem e o frio invade a barriga. Por 20 minutos, passamos por rios, florestas, montanhas, geleiras e lagos escondidos entre os picos. Ao aterrissar no Vale Sibéria, vemo-nos rodeados pelos montes nevados da Terra Média – é como se a galera da Sociedade do Anel fosse aparecer a qualquer momento. E a sensação continua durante toda a caminhada de três horas que se inicia ali, saindo das margens do Rio Wilkin para adentrar a mata. Ao final da andança, somos recompensados com um belo piquenique-churrasco à sombra das árvores, com hambúrguer de carne de veado (caçado ali mesmo, naquela manhã) e as famosas fritadas de peixinhos neozelandesas.

O retorno fica a cargo do jetboat, um barco rápido movido a jatos de água – por não ter hélice, ele é capaz de passar por rios rasos, como é o caso destes que se formam com o derretimento da neve das montanhas. O trajeto é com emoção, cheio de manobras bruscas. Mas frio mesmo, e no corpo inteiro, é o que a gente sente ao tomar coragem para se molhar nas Blue Pools, perto de Makarora. A água, azulzinha de doer a vista, nos seduz a mergulhar – mas é só saber que a piscina natural vem do degelo de neve para imaginar a temperatura… Talvez baste a emoção de cruzar a passarela que balança em cima da água (há quem pule dali também).

Cerca de Sutiãs
Cerca de Sutiãs

 Bra Fence: Perto da Cardrona Distillery, fica a “atração” mais curiosa de Wanaka: a Bra Fence ou, em bom português, a Cerca dos Sutiãs. Tudo começou nos anos 1990, quando alguém pendurou a primeira peça íntima na grade à beira da estrada – o resto é história e hoje lá se vão mais de 800 modelos de todas as cores e todos os tamanhos.

Vinhos em Wanaka

Ao menor sinal de comentários pseudoentendidos durante a degustação, a guia-enóloga é taxativa. “Tentamos não falar de sabores e cheiros, a não ser que você seja um estudioso”, rebate, quando alguém do grupo solta algo sobre notas amadeiradas. “Preferimos falar de texturas, da energia da natureza e de como o vinho faz você se sentir de dentro para fora.” O discurso meio hippie, meio hipster é o mote da vinícola biodinâmica Rippon, que ocupa as escarpas de um morro com fartos vinhedos. Assim entendemos frio no inverno, prova-se um ótimo terroir por conta da alta e longa incidência de luz, além da posição geográfica e da qualidade do solo. A degustação na Rippon pode até ganhar pontos pela vista, mas é imbatível a simpatia de Sarah-Kate Dineen, proprietária da vinícola Maude. Nesta, o esquema é mais informal: o cliente prova rótulos de Pinot Noir, Chardonnay e Riesling em uma varanda gostosa, com acompanhamento de tábua de frios e, possivelmente, da prosa boa da Sarah.

Blue Pools
Blue Pools

Também a onda do gim chegou a Wanaka. Na estrada que vai a Queenstown, a destilaria Cardrona, aos pés da estação de esqui de mesmo nome, recebe visitantes em sua lindíssima propriedade para mostrar como é a produção à base de cevada maltada, levedura e água em alambiques de cobre. Se a preferência, porém, for por cerveja artesanal, vale recorrer à Rhyme & Reason Brewery (cujos rótulos casam bem com os hambúrgueres da Red Star, aquela do loiro descalço e vegano). As bebidas locais acompanham, ainda, as refeições nos bons restaurantes do centrinho de Wanaka, como o Ode, que tem menus degustação de até oito pratos com produtos locais e orgânicos, e o Kika, de ótimas tapas e pratos para compartilhar.

Tudo isso reabastece o pique depois de uma pedalada descompromissada ao redor do lago durante o dia. Se for exercício demais, pode trocar por passeios tranquilos que navegam pelo lago até a ilha de Mou Waho. Essa reserva natural serve de santuário para várias curiosos para filar uma boia, e o esquisitão weta, que lembra um grilo gigante e milenar, capaz de sobreviver congelado por semanas. Uma caminhada (as pernas estão sempre trabalhando por aqui) leva até o alto da ilha, onde se esconde um pequeno lago bom para banho. Por ali o visitante planta uma muda como forma de “compensar” o impacto causado na natureza por sua passagem. Subindo mais um pouco, a vista simplesmente embasbaca. Sento numa pedra e deixo os olhos absorverem a paisagem. É quando me vem, pela enésima vez desde que cheguei à  Nova Zelândia, uma frase do filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças: “Eu estou exatamente onde eu queria estar”. Com a diferença de que, daqui, agora guardo um milhão de boas memórias.

Fonte: Viajar pelo mundo

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