Nova Zelândia: a terra de Senhor dos Anéis (Parte 1)

novembro 29, 2018 blogdoguru No comments exist

Por aqui, a vida é leve e acontece ao natural. Andar descalço na rua é tanto um sinal do jeito descontraído dos neozelandeses quanto uma forma ancestral de se conectar com a natureza, como faziam os nativos maoris. Estamos, afinal, em um país-arquipélago banhado pelo Pacífico e pelo Mar da Tasmânia. Não é preciso ir à Ilha Sul, menos habitada e mais selvagem, para sentir essa aura natureza-leveza. Mesmo em Auckland, ex-capital e porta de entrada para os voos internacionais na Ilha Norte, a vida parece seguir sem grandes complicações.

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E se esse ideal de vida – e de viagem – parece muito distante, há alguns mitos a serem derrubados. Sim, a Nova Zelândia está do outro lado do mundo e vive mais de meio dia à frente de nós. Apesar do tilt no relógio (o das horas e o biológico), chegar lá não é uma longa jornada como muitos pensam. Saindo do Brasil, o passageiro faz conexão em Santiago com a Latam ou, mais rápido ainda, em Buenos Aires com a Air New Zealand. Depois, um voo de não mais que 13 horas cruza o Pacífico e pronto: chegamos ao “futuro”. O futuro, lá vem spoiler, é um lugar legal: você pode andar descalço na rua, pode ir da praia à neve, caminhar entre montanhas e até encontrar o anel mais precioso da Terra Média. É o que se espera, afinal, de um país onde o povo dá as boas-vindas dizendo na língua local o equivalente a “fique bem/ seja saudável”. Ou, como você vai ver em toda parte: kia ora.

Auckland

A maior cidade da Nova Zelândia é um mix de natureza selvagem e construções que te deixam nas alturas (e com frio na barriga!)

Auckland
Auckland

Num primeiro momento, o visitante que desembarca em Auckland talvez espere encontrar uma Sydney neozelandesa (a comparação com a vizinha Austrália é de certa forma inevitável, ainda que quase sempre infundada). Sejamos francos: não será bem assim. Na maior cidade do país, com seu quase 1,5 milhão de habitantes, o horizonte de prédios à beira da água é mais modesto em exuberância. Mas não em diversidade, tampouco em emoção. Três noites em Auckland ajudam o corpo a se situar e servem como uma bela introdução à Nova Zelândia.

SkyWalk
SkyWalk

O pináculo que salta aos olhos em quase qualquer ponto da cidade é a Sky Tower, a torre mais alta do Hemisfério Sul. Somando a antena, lá se vão 328 metros. Apesar da sua boa concentração de bares e restaurantes (da hamburgueria Andy’s no térreo ao giratório Orbit 360° no topo), não é só por isso que os turistas correm para lá. Quem está aos pés da torre logo ouve gritos vindos de cima, que se aproximam conforme o corpo de macacão azul e amarelo aterrissa quase no nível do chão. Aqui, na Sky Tower, pode-se ter um gostinho do famigerado bungee jump que se faz em outras partes do país: o SkyJump lança os aventureiros de uma plataforma a 192 metros de altura, presos a um cabo de aço, em saltos que alcançam 85 km/h. Mas não é preciso tanto estômago para a outra atração radical da Sky Tower: o SkyWalk, uma caminhada por essa mesma plataforma, que corre estreita por fora da torre. Ao longo de uma volta completa, você vai preso pelas costas enquanto um guia-instrutor aponta os cartões-postais de Auckland e incentiva a espichar o corpo para além da passarela, abrindo os braços para o abismo.

SkyJump
SkyJump

Se nada disso parece muito confortável, tudo bem: apenas use o elevador para chegar ao observatório – os olhos alcançam até 80 quilômetros à frente. Dali se entende a curiosa formação de Auckland: uma metrópole espremida entre e sobre 48 vulcões dormentes, alguns deles despontando como ótimos mirantes naturais de vistas igualmente interessantes – vide o Mount Eden, que, apesar da altura (não mais que 200 metros), revela um belo panorama da cidade, em contraste com sua cratera funda e tomada de grama verdíssima no que antes era um local sagrado para a cultura maori.

Assim chegamos, enfim, aos maoris, que hoje correspondem a 12% da população neozelandesa: para conhecer melhor os habitantes originais da Nova Zelândia, vamos ao topo de outro vulcão, o Pukekawa. Ali, como parte do grande parque público conhecido como Auckland Domain, fica o War Memorial Museum, onde a história do país e de seu povo é documentada em três andares. No primeiro, o visitante aprende que os maoris chegaram navegando a partir da Polinésia há mais de mil anos; que o explorador Abel Tasman aportou em 1642 e batizou a nova terra em homenagem a uma província de sua Holanda natal; que em 1769 vieram os ingleses, estabelecendo a Nova Zelândia como colônia 30 anos depois, em meio a uma série de conflitos entre tribos maoris; e que o país finalmente declarou independência em 1947, mas que ainda se mantém sob a batuta da rainha Elizabeth como chefe de Estado.

War Memorial Museum
War Memorial Museum

No segundo andar, é a vez de conhecer a curiosa natureza da Nova Zelândia, dos vulcões aos animais. Isolada de outras porções de terra, a fauna local originalmente não contava com mamíferos, mas preservava várias aves únicas e endêmicas, como o extinto moa e o onipresente kiwi – que dá nome à fruta e virou sinônimo para designar tudo o que é neozelandês. Por não voar, ele se tornou presa fácil no passado e hoje corre risco de extinção. O último andar, por fim, foca no envolvimento da Nova Zelândia em conflitos, como as duas Guerras Mundias.

Britomart e Ponsonby: os bairros da moda em Auckland

Ok, mas entre caretas maoris e saltos radicais, onde é que está aquela vibe natureza-leveza que a gente cruzou o mundo para sentir na pele? Pois bem: uma caminhada pelas lojas sem muito charme das ruas Queen e High, praticamente aos pés da Sky Tower, termina na gostosa região de Britomart, na beira da água. O complexo é um apanhado de prédios históricos remodelados que veio arejar a antiga zona mercantil com lojas de grifes, galerias, escritórios e restaurantes. Conforme manda a cartilha das fotos-que-bombam-na-internet, não poderiam faltar o gramado com pufes ao ar livre e o cordão de luzinhas abrilhantando uma viela charmosa só de pedestres – quase impossível resistir ao chamado gracioso das mesas externas do bistrô Ortolana, dono de menu fresquinho com referências italianas.

Acompanhando o porto pela Quay Street, à sombra das pohutukawas (as chamadas árvores de Natal, porque florescem vermelhinhas no fim do ano), chegamos a mais uma região revitalizada. Aqui se justifica a fama de Capital da Vela que Auckland ostenta – há nada menos que 135 mil barcos em suas marinas. É o Viaduct Harbour, herança de quando a cidade sediou, em 2000 e 2003, o torneio internacional de iatismo America’s Cup, tão importante para a Nova Zelândia quanto uma Copa do Mundo para o Brasil. Ali estão restaurantes para um bom almoço com brisinha do mar e porções para compartilhar, como o The Lula Inn. Quem quiser ter um gostinho de como é velejar nas águas em frente a Auckland pode recorrer aos diversos passeios disponiveis, ajudando a içar as velas ou mesmo a manejar o timão. Também tem outros roteiros, menos atléticos e mais turísticos, que levam para explorar baías e ilhas vizinhas, com direito a mergulhos, paradas em praias e encontro com golfinhos.

Bistro Ortolana
Bistro Ortolana

Mas tanto Britomart como o Viaduct Harbour parecem beber de fontes mais sofisticadas do que sonha a filosofia hipster. Por isso, rume três quilômetros em direção sudoeste se quiser aquela misturinha gostosa de butiques criativas, cafeterias, casas noturnas, livrarias e restaurantes étnicos para nenhum admirador do bairro nova-iorquino Williamsburg botar defeito. Eis a Ponsonby Road, desfecho delícia para aquele entardecer de verão: depois de um giro pelas lojas e bancas do mercado Ponsonby Central, comece com um drinque ali mesmo, no Bedford, onde vodca e vermute chegam à mesa dentro de um bule fumegante de gelo seco, com pepino, manjericão, maçã e feijoa (frutinha brasileira que é mais sucesso lá do que aqui). Depois, siga para um jantar no Orphans Kitchen, um casarão vitoriano dos anos 1920 cujo menu segue a tríade “fornecedores locais + produtos sazonais + cozinha inventiva”. Mais hipster, impossível.

Praias e natureza em Auckland

Auckland se orgulha de viver entre a mata e a praia. Na prática, isso quer dizer que em viagens curtas a gente deixa a cidade para trás e se embrenha em trilhas na natureza, fica de frente para uma cachoeira copiosa e pisa numa praia de areia preta. Para cair na estrada, de duas, uma: ou o viajante encara a mão inglesa e aluga um carro ou abre o bolso e contrata tours de um dia. Existem opções de roteiros que combinam “o melhor dos dois mundos”. Começamos com o mundo número 1, que é a cidade em si, fazendo um tour caprichado pela manhã. Atravessada a Auckland Bridge (adivinha se não tem escalada e bungee jump ali?), estamos em Devonport, vilarejo repleto de casas vitorianas, gostosinho para espairecer em trilhas, praias e cafés charmosos na Victoria Road. Ali dá para fazer fotos bonitas do alto do Mt Victoria, mais um dos vulcões de Auckland. A vista dá para o Rangitoto, o maior deles, forrado de árvores pohutukawas e palco para passeios emocionantes, que vão desde travessia em caiaque até escaladas ao topo.

Giapo Gelato
Giapo Gelato

Você nunca mais vai achar graça em tomar um sorvete qualquer depois que conhecer as criações exóticas da Giapo. Gelato aqui é uma obra de arte e pode aparecer com adereços em formato de lula, porta-retratos, coração e até da SkyTower.

No caminho até a próxima parada, começamos enfim a explorar o mundo número 2 – o da natureza ao redor de Auckland. Percorrendo uma estradinha curvilínea e estreita, nosso destino é o Waitakere Ranges Regional Park, famoso por trilhas para todos os níveis, desde a curtinha Byers Walk, em que já se podem ver exemplares da flora nativa, até a desafiante Hillary Trail, de quatro dias. Guarde fôlego para encarar a cachoeira Karekare, uma belezura com 30 metros de altura, difícil de enquadrar na foto, mas convidativa para um mergulho. É rápido o caminho dali até Piha Beach, praia de ondas fortes e areia preta: aproxime um ímã e veja os grãos se eriçando todos, riquíssimos em ferro. A enseada em si não é excepcionalmente linda, mas ganha ares selvagens com a presença da Lion Rock, um restinho de vulcão que colapsou há 16 milhões de anos. É essa a vista de quem almoça no Piha Café, que serve pizzas surpreendentemente gostosas de frente para a praia.

DICA DE OURO: gratuita, a Auckland Art Gallery tem desde obras contemporâneas de artistas locais até Picasso Monet. Destaque para a exibição de retratos maoris, que detalham bem a cultura das tatuagens (no queixo para elas, no rosto todo para eles).

Fonte: Viajar pelo mundo

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