Glorioso Marrocos – parte 2 de 2

fevereiro 19, 2019 blogdoguru No comments exist

A caminho do deserto!

A viagem rumo ao deserto rende mais 415 quilômetros de estrada. No caminho, há paradas interessantes. A primeira delas foi Ifrane, considerada a Suíça marroquina pela semelhança arquitetônica, pelas avenidas largas, pelo bosque de cedros e pelas baixas temperaturas registradas durante o inverno. Localizada a 1.700 metros de altitude, nas montanhas do Médio Atlas, chegou a bater a menor temperatura do continente africano em 1935: 23 ºC negativos! A 19 quilômetros de Ifrane, a estação de esqui de Michlifen derruba qualquer estereótipo de Marrocos. Trata-se de um resort nos moldes alpinos, construído em madeira, com direito a lareira e piscina aquecida a céu aberto.

Deixando Ifrane em direção ao sul, a Floresta de Cedros (Cèdre Gouraud), em Azrou, é a próxima parada. Ali, os macacos-de-gibraltar, espécie em extinção comum nessa região, vivem soltos e fazem a alegria dos turistas, que param à beira da estrada para fotografá-los. Tome cuidado apenas com objetos que podem ser surrupiados pelos animais, como óculos e celulares.

A viagem continua até Erfoud, no Vale do Ziz. Parte da província de Errachidia, é a porta de entrada do deserto e endereço do incrível Kasbah Hotel Xaluca Arfoud, dono de 144 espaçosos quartos construídos em adobe, ao redor de uma piscina central, com bar molhado e muitas palmeiras. Um dos pontos altos é o spa com massagens e banhos típicos marroquinos, piscina aquecida e hidro. Quadras de futebol e tênis, minigolfe e academia completam o espaço. Possui ainda uma frota de quadriciclos utilizados para passeios nas dunas ao redor do hotel. É possível combinar a hospedagem ali, com uma noite acampado no deserto. A própria rede Xaluca oferece a opção em luxuosas e confortáveis tendas em meio ao Saara, com jantar, almoço e café da manhã inclusos na experiência.

 Coração do Marrocos

A partir de agora, apenas veículos 4×4 conseguem seguir viagem. Na direção, estava o motorista Osmar, que passou sua infância em um pequeno povoado às margens do Saara e conhece como poucos a região. Sem GPS ou qualquer outro meio de navegação, o carro vai se movendo pelas dunas em direção ao destino final: o acampamento Bivouacs Xaluca.

Depois de alguns quilômetros percorridos no deserto, a parada foi inevitável: uma carreira de fósseis de animais marinhos que viveram ali há mais de 360 milhões de anos estava sob os nossos pés. Pensar que todo aquele lugar seco, quente e sem um sinal de água um dia já foi mar, realmente é incrível.

Seguimos viagem e nossa última parada antes do almoço foi em um acampamento nômade. Uma tenda, relativamente grande, com tapetes sobre a areia e três outras estruturas mais rígidas, feitas de pedra, serviam de casa para uma família. Fomos recebidos por Fátima, uma senhora de aproximadamente 50 anos, que estava junto com os dois filhos menores. Eles acreditam que essa é a melhor forma de se viver; as crianças são criadas sem ostentação e com base nos princípios e costumes antigos. A pouco menos de cinco metros, uma construção pequena servia de cozinha, com um forno de pedra e algumas panelas, e, ao lado, ficava o cômodo para a família. Um pouco mais afastado, a cerca de cem metros, outra casinha de pedra abrigava meia dúzia de filhotes de ovelhas e um burro. Placas de energia solar garantiam a iluminação no interior da tenda. “Mas cadê o banheiro?”, perguntei ao guia. Ele respondeu, estendendo os braços: “O deserto é o maior banheiro do mundo”.

A parada para o almoço foi um churrasco no oásis Tisserdmine, à sombra das palmeiras, uma estrutura sofisticada, montada pela rede Xaluca para os hóspedes que ficam em seus hotéis e fazem o roteiro pelo Saara. Um esquenta para o passeio pelas famosas dunas de Erg Chebbi, as maiores do Marrocos. Elas estão perto da fronteira com a Argélia, na região de Tafilalet. É realmente impressionante ver os montes de areia com cerca de cinco quilômetros de largura e 22 de comprimento. Coroando esse passeio, deixamos o 4×4 e seguimos no lombo de dromedários para esperar o entardecer e ver o sol se despedindo atrás de um mar de areia.

O céu forrado de estrelas foi a grande companhia durante a volta até o acampamento. Com uma infraestrutura invejável, as tendas de categoria mais alta têm, em média, 90 m², divididos em dois cômodos. Um deles tem cama king size e sofá, enquanto o outro guarda um pequeno closet; duas tendinhas menores servem para o banheiro e para o chuveiro (com água quente, claro!). Tapetes espalhados dentro e fora das barracas garantem um conforto a mais.

O jantar foi servido com clássicos da culinária marroquina: tagine, cuscuz, carnes variadas, frutos secos, chá de hortelã e até cerveja e vinho. Apresentação de dança típica e mulheres fazendo tatuagem de hena embalaram a refeição.

No dia seguinte, eu me despedi do deserto e da experiência mais incrível da minha vida. Segui por mais 260 quilômetros até a província de Tinghir para visitar a Garganta de Todra (Gorges du Todra). Pelo caminho, uma paradinha providencial para assistir a uma apresentação de dança dos Bambara, um grupo formado por moradores da aldeia Khamliya, que acreditam que a música tem um importante papel social, além do poder de curar enfermidades. Mais à frente, estacionamos na pizzaria Des Dunes, que, além das pizzas, serve diversos pratos marroquinos. As lojinhas ao lado garantem ótimas compras de artesanato (com preços sensacionais) e do famoso óleo de argan.

Compras feitas, era hora de conhecer o célebre desfiladeiro do Marrocos. A Garganta de Todra é formada por paredões com mais de 300 metros de altura e um estreito corredor com apenas 30 metros. Os últimos 600 metros do cânion constituem o trecho mais espetacular – ele fica mais estreito, não ultrapassando os dez metros de largura, ladeado por paredes de até 160 metros. É incrível o efeito que a luz produz na fenda, promovendo mudança da cor conforme a intensidade do sol. Tudo isso é refletido em um lago de águas cristalinas – para delírio dos turistas e dos aventureiros que praticam rapel e escalada nas escarpas.

Garganta de Todra

À noite, as águas quentes da hidromassagem com vista incrível para as montanhas do Alto Atlas incrementaram minha estada no hotel Xaluca Dades, um bom ponto de parada a caminho de Marrakesh.

De volta à estrada

Hora de seguir para Marrakesh e aproveitar os últimos dois dias de viagem. Mas antes, as paradas pelo caminho se tornam tão interessantes quanto o destino final. Um desses lugares é Kelaat-M’Gouna, a cidade das rosas. Estima-se que aqui são colhidas mais de três e meio toneladas de pétalas por ano, usadas para a produção de cosméticos à base de água de rosas e de óleo de rosas, comumente usado na cozinha. Nos meses de maio e junho, acontece a colheita, precedida por um animado festival que dura três dias e celebra a seara.

Seguindo viagem, foi a vez de chegar a Ouarzazate, depois de 89 quilômetros de estrada. A chegada é uma boa surpresa – o visitante dá de cara com uma cidade moderna, desenvolvida pelos franceses para ser um centro administrativo. É também uma região de transição entre as montanhas e o Saara. Mas não é só isso: ela é conhecida como a Hollywood do Marrocos graças ao Atlas Studio, um conjunto cinematográfico aberto à visitação. Ali, foram rodados clássicos do cinema como Indiana Jones, Gladiador, A Múmia e Cleópatra. Ficam em exposição roupas, espadas, armaduras e itens da cenografia usados nos filmes.

Ouarzazate – Atlas Studios

Mais 30 quilômetros e surgem as casbás de Taourirt e de Ait-Ben-Haddou. Em poucas linhas, tratam-se de conjuntos de casas de adobe rodeados por torres e muralhas, um tipo de construção tradicional dos povos que habitaram o sul do Marrocos. O adobe protege do frio que acomete as áreas desérticas à noite e também do calor que faz durante o dia. Taourirt é considerado um dos casbás mais belos do Marrocos, um antigo palácio-fortaleza construído em meados do século 18. Hoje, está parcialmente em ruínas, mas com a ajuda da Unesco, partes foram restauradas e são abertas para visitação.

Outro exemplo notável é Ait-Ben-Haddou, situado em uma colina às margens do Rio Ounila. Ele é uma síntese perfeita da arquitetura marroquina dos povos pré-saarianos no país. Podem ser vistos casas de adobe de diferentes tamanhos, pátio central, área de cultivo, cemitério, mesquita… Quase não há mais moradores e apenas 50 residências são habitadas. Declarado patrimônio da humanidade, Ait-Ben-Haddou também serviu de cenário para o filme Gladiador e para a terceira temporada de Game of Thrones. Se tiver fôlego, não deixe de arriscar a subida até o topo – não é longa, mas o tempo seco e o calor viram adversários.

Ait-Ben-Haddou

A última parada antes de Marrakesh foi em uma cooperativa de mulheres que vivem da extração e do comércio de produtos à base de argan. Esse óleo, extraído da semente da árvore Argania spinosa, é conhecido também como o “ouro líquido do Marrocos”. É tido como um elixir no tratamento dos cabelos e rejuvenescimento da pele. O que talvez muita gente não saiba é que, para obter um litro de óleo, são necessários aproximadamente cem quilos de semente, o que explica seu custo alto. A maneira de extrai-lo é bem curiosa: cabras sobem nas árvores e mastigam o fruto por alguns segundos, cuspindo apenas as sementes, que são recolhidas pelos produtores.

Hora da despedida
Considerada a quarta maior metrópole do país, mas a primeira em número de turistas, Marrakesh é uma das quatro cidades imperiais do Marrocos, junto com Rabat, Casablanca e Fez. Também conhecida como Cidade Vermelha, em virtude da cor de suas muralhas e casas, foi construída em 1122.

Encantador de cobras na praça Jemaa el-Fna

O ponto mais frenético é a Praça Jemaa el-Fna. Ao centro, encantadores de cobras tentam fisgar turistas e encorajá-los a tocarem e se enrolarem nas serpentes, assim como aqueles famosos pobres macaquinhos acorrentados à espera de uma foto. Ao redor, bares, restaurantes e lojinhas estão sempre cheios.

Outro lugar imperdível, bem pertinho dali, é a Medina de Marrakesh, mais movimentada e mais turística que a de Fez. O local é lotado de vendedores insistentes – fui seguido por um deles por mais de 20 minutos e acabei comprando três bolsas que eu nem queria. Assim como em Fez, não abra mão de um guia local: eles ajudam a economizar tempo nos passeios e ainda mostram curiosidades e segredos escondidos naquele mar de vielas.

Praça Jemaa el-Fna

A cerca de 15 minutos a pé da Praça Jemaa el-Fna, os Túmulos Saadianos ficam expostos no mausoléu real da Dinastia Saadiana, com três salas e um lindo jardim. Há 70 pessoas sepultadas ali, entre eles Ahmed al-Mansur, rei do Marrocos entre os anos de 1578 e 1603, e sua família. Descoberto em 1917, foi restaurado e é considerado Patrimônio Mundial da Unesco. Imperdível também são os Jardins da Menara, rodeados de oliveiras e pomares, com um lago artificial abastecido de água das montanhas a mais de 30 quilômetros de distância.

Marrakesh – Jardim Botânico Majorelle

Na lista de “floridos” entra, ainda, o Jardim Majorelle, o mais famoso de Marrakesh. Criado em 1931, reúne mais de 3 mil espécies botânicas, espalhadas em quase 10 mil m². Leva o nome de seu fundador, o pintor francês Jacques Majorelle (1886-1962). Comprado por Yves Saint Laurent em 1980, que adorava visitar o espaço e o considerava inspiração para suas coleções, foi reformado e posteriormente doado por ele à Fundação Jardim Majorelle. Por ali ainda há café, butique com produtos da marca do estilista, museu da cultura berbere, livraria, galeria e memorial dedicado a Saint Laurent.

Mais tarde, fui assistir a uma apresentação no Chez Ali, espécie de show equestre realizado em uma arena aberta. Mais uma vez, o céu forrado de estrelas foi o protagonista dessa noite, a exemplo de todas as outras durante essa viagem sensacional pelo Marrocos.

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