Cartagena dos amores

dezembro 20, 2018 blogdoguru No comments exist

Foi paixão à primeira leitura quando o livro O Amor nos Tempos do Cólera caiu nas minhas mãos. E o mesmo aconteceu logo em seguida, com Do Amor e Outros Demônios. Em comum entre as duas histórias, há o tom de romance (mas não necessariamente aquele fácil e bonito), o autor (o colombiano Gabriel García Márquez) e o cenário… Foi assim, pelas histórias de Gabo, que “conheci” Cartagena das Índias, no litoral norte da Colômbia.

Quando, finalmente, visitei a cidade, foi como mergulhar em um conto de realismo mágico, o gênero no qual García Márquez se consagrou mundialmente, adicionando toques fantásticos a suas histórias. Não sei se a sensação de “fantasia” veio por causa das muralhas do século 16, dos sobrados coloridos com varandas de madeira, das flores nas paredes, das estreitas ruas de pedra ou, ainda, da lembrança de que as cálidas águas do Caribe estavam logo ali, a lamber a costa.

Mas eu não sou a primeira nem serei a última a ter um caso de amor com Cartagena, essa sedutora por natureza. Ela não é de se prender a um único amante. Muita gente de alta estirpe, como Bill Clinton, Mel Gibson, Julio Iglesias e Shakira, também já se deixou seduzir por sua pegada meio latin lover, meio romântica. Cartagena, afinal, nos inebria. Ao tomar um mojito no bar do sofisticado Hotel Santa Clara, antigo convento de freiras enclausuradas do século 17, vi materializar-se, em detalhes pitorescos, o cenário que eu havia imaginado para Do Amor e Outros Demônios: um claustro rodeado de arcadas e tomado por um jardim luxuriante. E estou quase certa de não ter sido culpa do rum…

Sofitel Legend Santa Clara Cartagena
Sofitel Legend Santa Clara Cartagena

É que exatamente embaixo do bar ficavam as criptas das monjas – de onde, durante a reforma que transformaria o convento em hotel da rede Sofitel, foi retirado um crânio quase pueril, do qual se desprendia uma longa cabeleira de 22 metros. A descoberta foi o que bastou para que a mente fértil de García Márquez lapidasse a menina Serva María, protagonista daquele romance. Depois, em minhas andanças pela cidade, eu passaria ainda pela Plaza de la Aduana, palco do baile carnavalesco de O Amor nos Tempos do Cólera – cuja adaptação para o cinema foi rodada ali mesmo, em Cartagena, com o apelo apropriadamente sensual de Javier Bardem.

Gabo é, enfim, um personagem tão ilustre na história de Cartagena que existem roteiros destinados a percorrer lugares citados em suas obras – passando, inclusive, pela casa que ele manteve à beira-mar até sua morte, em 2014. O artista colombiano Fernando Botero é outro fã confesso da cidade: de tanto amor, doou esculturas para adornar as praças – como a Figura Reclinada, vulgo Gertrudis, que exibe suas formas voluptuosas na Plaza de San Pedro. Apalpar os seios da gordita em pose de Afrodite, diz a crença, garante relações amorosas duradouras.

Igreja da Plaza de San Pedro
Igreja da Plaza de San Pedro

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Cartagena é isto: literária, poética e histórica. Fundada pelos espanhóis em 1533, ela já foi o porto mais importante das Américas, alvo constante de ataques piratas em busca de ouro e prata – daí as muralhas de pedra fortificadas com canhões. Como medida extrema, os espanhóis ergueram o Castelo de San Felipe de Barajas sobre o monte São Lázaro, fora dos paredões. No século 18, o forte bloqueou o avanço de tropas britânicas que chegavam determinadas a fincar bandeira naquelas terras. Há quem diga até que, não fosse a estrutura militar de Cartagena, a América do Sul, hoje, falaria inglês.

Atualmente, o castelo, bastante preservado, virou cartão-postal e representa bem o apelido de La Heroica, que Cartagena ganhou em 1811 – quando Simón Bolívar instituiu-a como quartel-general durante sua campanha pela liberdade da Colômbia e da Venezuela. Ali, mais que apreciar a vista contrastante entre antigo e moderno, é possível caminhar pelo labirinto de túneis estreitos por onde, séculos atrás, espremiam-se soldados carregando munição e espreitando o inimigo.

Entre as “índias” da Cartagena colonial, uma ganha atenção especial: a menina Catalina, que, aos 14 anos, foi levada à Espanha pelos colonizadores. De volta à América, já adulta, serviu de tradutora e pacificadora entre índios e espanhóis. Em sua homenagem, uma estátua de quase três metros de altura resplandece em uma rotatória na parte moderna da cidade. Moderna, sim – afinal, há mais que heranças históricas numa cidade onde vivem, para além dos limites das muralhas, quase 1 milhão de pessoas, entre prediões e avenidonas. Em um típico programa de turista, a chiva – ônibus colorido tipo jardineira, com músicos tocando salsa, rumba e cumbia – leva para um tour pelas áreas urbanas, contornando vias costeiras e revelando zonas hoteleiras e empresariais.

De volta ao centro histórico, demarcado pela Torre do Relógio, as chivas saem de cena para dar lugar às charretes – dia e noite, elas são o único meio de transporte autorizado a circular pelas ruas estreitas do lado de cá das muralhas. Eu dispensaria os cavalos, ainda que a prosa dos condutores seja boa e ajude a entender mais sobre o passado local. É que preferi os pés para poder explorar sem pressa aquele entrelaçado de ruelas, que me levaram a desembocar em praças, descobrir museus e ver uma série de histórias, reais ou literárias, desenrolarem-se diante dos olhos.

E se museus contam bons causos, Cartagena há de ter um punhado considerável deles. No Palacio de la lnquisición, por exemplo, os protagonistas são as bruxas e os hereges. Ali, naquele casarão do século 18, a Inquisição espanhola interrogava e punia os infratores das leis cristãs. Hoje, é a sede do Museo Histórico, com réplicas de instrumentos de tortura tão cruéis que parecem cenografia de filme de terror. Cruzando a arborizada Plaza de Bolívar está a catedral, construída no século 16, com altar de madeira folheado a ouro e púlpito em mármore de Carrara. O Museo del Oro, por sua vez, guarda peças feitas pela civilização zenu, que habitou o norte da Colômbia até a chegada dos espanhóis. O Museo de las Fortificaciones conta a história e o funcionamento das muralhas, enquanto o Museo Naval del Caribe recria o passado de Cartagena do ponto de vista marítimo. Para descolar suvenires de viagem, a boa é rumar para o antigo complexo do depósito militar e das celas de prisão, o Cuartel de Las Bóvedas – adaptado, hoje abriga lojas de artesanato local, que vendem bonequinhas, cerâmicas e trabalhos em tecido, como as famosas bolsas coloridas.

Museo Del Oro
Museo Del Oro

O pôr do sol mais disputado de Cartagena é no Café del Mar, em um baluarte da muralha que dá de cara com o Mar do Caribe. Mesas ao ar livre e DJs tocando ao vivo acompanham. Depois que a noite cai, o calor cede um pouco e as ruas charmosas do centro histórico convidam para um bater de pernas. É hora de provar os sabores cartageneros – frutos do mar e peixes são o carro-chefe da cozinha local. Também há muita influência crioula, como em todo o Caribe, vinda de escravos africanos: arroz com coco, sancocho de sábalo (ensopado de carnes e tubérculos), higadete (sopa de fígado com banana), mote de queso (sopa de queijo e mandioca) e por aí vai…

Bolsas Wayuu
Bolsas Wayuu

O centro histórico guarda o que julgo ser uma das maiores concentrações de delícias por metro quadrado do planeta. Vide o El Santísimo, que acrescenta toques franceses a receitas cartageneras; o modesto e autêntico La Casa del Socorro, que aposta na cozinha tradicional a preço de banana; o La Vitrola, restaurante do hotel Casa El Carretero, que tem menu de nova cozinha colombiana em ambiente à la Cuba dos anos 1950, embalado por música caribenha ao vivo.

À base de coco, pinha, limão e tamarindo, as sobremesas também dão o que falar. Guarde espaço e vá provar boas amostras no Portal de los Dulces, perto da Torre do Relógio. Saladas de frutas frescas são uma constante, vendidas pelas palenqueras, mulheres descendentes de escravos fugidos que usam vestes coloridas e equilibram bandejas na cabeça (para fotografar, hay que pagar!).

O calor de Cartagena

Faz muito calor em Cartagena. O dia inteiro, o ano todo. “Aqui não tem verão ou inverno. Tem a estação das chuvas e a estação seca”, diz o motorista que me buscou no aeroporto – a saber, segundo ele, chove entre maio e agosto. A umidade do ar é sempre alta, o que aumenta a sensação térmica.

Mais tarde, eu viria a saber: Cartagena tem, sim, suas enseadas continentais, como as praias de Bocagrande e Marbella, mas é nas ilhas vizinhas que estão as melhores – feito uma Paraty colombiana. Passeios de barco saindo de Muelle de La Bodeguita, perto da Torre do Relógio, levam às Islas del Rosario, um belo arquipélago de 27 ilhas nas redondezas. Lanchas e barcos partem logo cedo para passar o dia no mar, com almoço incluso (peixe fresco, arroz de coco e banana frita são de praxe). A cor da água, escura na baía, começa a mudar conforme a embarcação se afasta de Cartagena: o azul e o verde dão as caras, bem como os corais coloridos.

Islas del rosario
Islas del rosario

O roteiro pode variar, mas normalmente inclui o Oceanario, para ver 40 animais aquáticos e show de golfinhos, a ilha de Tierrabomba, com dois fortes espanhóis, a Isla del Tesoro e a Isla Grande. Outro ponto de parada dos passeio é Playa Blanca, na península de Barú – também de areia fina e mar branco, mas cheia de ambulantes ávidos por turistas. Aproveite para alugar um snorkel e explorar a Cartagena subáquatica, rica em vida marinha. É o Caribe, afinal, em uma versão autêntica, vibrante, sensual – a definição perfeita de Cartagena.

Oceanário
Oceanário
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