Croácia: Zagreb e Split

maio 7, 2019 blogdoguru No comments exist

Zagreb

Poderia ser um anão de jardim qualquer, como tantos outros no mundo, mas não. Este é diferente. Este é o “Anão Louco do Dia do Divórcio”, como informa a placa de identificação ao seu lado. Ele veio da Eslovênia diretamente para o Museum of Broken Relationships, a atração mais curiosa de Zagreb. A legenda conta mais: no derradeiro suspiro de um casamento em crise, a mulher atira a estatueta de jardim contra o vidro do novíssimo carro do marido esnobe. Sem nariz, sem joelhos e sem um pedaço da cabeça, o anão louco que foi o estopim da separação agora se exibe como um troféu de guerra. Quase como uma obra de arte.

A proposta do museu é justamente esta: celebrar a dor de um coração partido – porque, afinal, quem nunca? Para isso, conta com a ajuda de anônimos dispostos a doar objetos que representem suas relações fracassadas – e, por vezes, a superação que sucede a fossa. De vestidos de noiva amarelados a um machado usado para destruir os pertences da ex infiel; de um cavalo de vidro comprado na lua de mel em Veneza ao par de botas que outras usaram depois do término, o acervo é um curioso estudo sobre as relações humanas. A ideia veio de um casal que, recém-separado, resolveu expor itens pessoais em seu antigo apartamento. Deu tão certo que agora há uma filial permanente em Los Angeles, além de exibições temporárias que correm o mundo (quem quiser pode, inclusive, doar peças).

Já premiado como o mais inovador da Europa, o museu representa algo mais: o esforço de Zagreb em se reinventar ou em não cair na mesmice. É um esforço compatível com uma capital que, desolada por uma guerra civil, carregou nas costas o peso de reerguer a nação sem deixar morrerem as tradições. Logo ao lado do museu, eis uma delas: a Igreja de São Marcos, com seu telhado pintado em xadrez vermelho e branco – uma referência ao brasão de armas medieval do país. Em tempo: é daí, do brasão, que vem a estampa do uniforme da seleção croata de futebol.

Igreja de São Marcos

Pois, sim, tradição é assunto sério em Zagreb, uma cidade que faz lembrar outras do Leste Europeu, talvez por conta da arquitetura sisuda herdada dos tempos socialistas da Iugoslávia. Nesse mesmo quesito, tem ainda bondes azuis de ares vintage que fazem o transporte público; tem o canhão da Torre Lotrscak, que dispara diariamente ao meio-dia há décadas – e embaixo dela tem um restaurante ótimo, o Pod Grickim Topom, para provar especialidades locais, como a peka (carne com legumes que assa sob uma tampa em forma de sino, coberta por cinzas quentes).

De cima a baixo

Antes de me deixar solta para explorar a cidade por conta própria, o guia aconselha: “Não deixe de conhecer o Dolac. Siga o cheiro!” Vou andando até que, sim, eu sinto o cheiro de fome. Guiada pelo rastro e pelo mapa, desemboco no mercado Dolac, mais uma tradição de Zagreb. Todos os dias, produtores locais armam, a céu aberto, barracas de toldo vermelho para vender frutas, verduras, flores, tudo muito fresco. Em um galpão ao lado, funciona o mercado de peixes e, um andar abaixo da praça, o de carnes e embutidos. “No photo, no photo”, dizem em inglês decorado alguns vendedores carrancudos. Para eles, ainda tão apegados às raízes, uma foto bonita no Instagram não justifica a profanação digital de seus frutos suados.

Mercado Dolac

Antes de chegar ao Dolac, eu havia percorrido a Cidade Alta, parte medieval onde ficam o Museum of Broken Relationships e a Igreja de São Marcos. Zagreb nasceu a partir da fusão de duas vilas rivais, situadas no topo dos montes Gradec e Kapitol. A ligação entre ambos é feita pela Rua Tkalciceva, antes um riacho que delimitava a fronteira dos vilarejos – dizem que, durante os embates entre eles, as águas chegavam a se tingir de sangue, tamanha era a violência. Aterrado, o ribeirão deu lugar a esta que é agora a via mais descolada e boêmia de Zagreb, repleta de bares e cafés.

Pavilhão de Arte

De funicular (ou pelo arborizado caminho Strossmayer), chega-se à Cidade Baixa, a área moderna de Zagreb, cujas vias planas se estruturam ao redor da Ferradura Verde – um conjunto de praças e parques que engloba importantes instituições e espaços públicos, como o Teatro Nacional e o Jardim Botânico. Aqui, destaque para o Museu Mimara, que reúne, em um palácio neorrenascentista, uma coleção de 3 mil peças, de tapeçarias a obras de Renoir e Degas, e para o centenário Pavilhão de Arte, que sedia exposições temporárias. Todos os caminhos levarão à praça Ban Jelacic, o meio de campo entre as partes alta e baixa, cujo relógio é o principal ponto de encontro de Zagreb. Por ali, depois de toda a andança, escolho uma mesa ao ar livre e, seguindo as tradições, me dedico à spica, o gostoso hábito local de tomar um cafezinho observando o vaivém.

Split

O ambiente de trattoria à meia-luz, a mesa farta de antepastos, a toalha xadrez e… Onde é que estou mesmo? O peixe vem assado inteiro com limão amarelo, acompanhado de vinho forte, enquanto ares calorosos sopram na noite lá fora. O senhorzinho de bigode branco serve a mesa com um misto de orgulho, eloquência e um pouco de rabugice. Poderia ser a Itália, mas é Split, na costa da Dalmácia, sul da Croácia. É como se a Bota tivesse se espichado em um pontapé além-mar, ganhando vida em restaurantezinhos com paredes de pedra como este, o Sperun. A Itália, afinal, está a apenas três horas de balsa dali, atravessando o Adriático.

Mar esse que tem importância fundamental para o turismo em Split. Dali saem os barcos para as ilhas de Brac, Vis e a badalada Hvar, tida como a “Saint-Tropez croata” – onde ficam algumas das praias mais bonitas do país. Quem, no entanto, quiser banho de sol e mar sem sair de Split, pode começar o roteiro assim: primeiro, Bacvice, a enseada mais popular, a 15 minutos de caminhada desde o centro histórico, com bares, duchas, cadeiras e guarda-sóis para alugar. Cinco minutos depois, vem Ovcice, também famosa, mas com pedrinhas no lugar de areia; outros cinco minutos e chega-se à familiar Firule. Já na área central da cidade, o reluzente calçadão à beira-mar conhecido como Riva tem restaurantes que reúnem turmas, casais e famílias em clima descontraído, a saborear um peixe fresco com vinho Dingac ou cerveja Karlovacko.

Nos passos do imperador

A história é outro fator decisivo no parentesco Itália-Croácia. E é isso que se vê no cartão-postal de Split, ali mesmo no calçadão à beira-mar. Imponente, o Palácio de Diocleciano foi a residência de veraneio do imperador romano no século 4º e hoje é uma das mais bem preservadas heranças do período. Não tem miséria: as muralhas de proteção chegam a 215 metros de comprimento e até 26 metros de altura, construídas em calcário proveniente da região – dizem por ali que também a Casa Branca americana é feita dessa mesma pedra local.

Palácio de Diocleciano

É verdade que, apesar de bem conservado, o palácio sofreu uma série de modificações. A fachada original agora é tomada de bares e restaurantes. O interior, antes dividido em quatro partes, foi ocupado por ruelinhas labirínticas, onde vivem 3 mil pessoas, pendurando seus varais fora das janelas, cuidando de suas jardineiras floridas e deixando escapar o cheiro de alho refogado na hora do almoço. No ir e vir de sua rotina, elas dividem espaço com os turistas, que ali encontram hotéis, restaurantes e lojas.

Os subterrâneos do complexo, no entanto, permanecem praticamente intactos e hoje sediam exposições de arte, peças de teatro, feira de flores e eventos gastronômicos (além de terem sido cenário para a série Game of Thrones).
Mas o ponto culminante do palácio é mesmo o Peristilo, o pátio central que reúne as construções mais antigas dali, como o Templo de Júpiter, adornado com uma das várias esfinges trazidas do Egito, e o mausoléu de Diocleciano, transformado em catedral – ironia do destino, já que o imperador foi um infame perseguidor de cristãos.

Antiga entrada principal do palácio, a Porta de Ouro é guardada pela enorme estátua de Gregório de Nin, bispo que, no século 10º, defendeu o direito de rezar missas na língua local. Ali, vejo uma moça esfregando, sem parar, o dedão da escultura à la Mago Merlin. “Tira outra!”, grita ela, pedindo mais uma foto. E posa ainda outras cinco vezes até achar o clique ideal, sem desgrudar do pé do bispo, enquanto uma fila de turistas se forma atrás dela. Todos com o mesmo objetivo: tocar o dedão. É tanto afago que a estátua já está até desbotada. É que, dizem, quem a esfrega, sorte na vida terá. E então lá vou eu para a fila, pronta para me render às tradições croatas…

Made in Croácia

A Croácia tem criações mais famosas do que imaginamos. As gravatas, por exemplo, vieram do cravat, uma espécie de lenço que fazia parte do uniforme dos soldados croatas no século 17. Uma vez no pescoço dos franceses, o acessório virou moda para além da esfera militar (e quem quiser comprar uma autêntica gravata croata em Zagreb encontra um sem-fim de opções nas lojas da rede que se chama, justamente, Croata). Também foi naquele mesmo longínquo século 17 que o cachorro dálmata, originário da Dalmácia, ganhou status de “adorno” da alta sociedade local, escoltando carruagens cheias de pompa – 300 anos antes de virar estrela de Hollywood.

Estique até Trogir

A 20 minutos de carro a partir de Split, a cidade-ilha de Trogir nasceu como uma vila medieval e ainda hoje preserva construções da época, como fortalezas à beira do mar e a Catedral de São Lourenço, cuja torre proporciona uma ótima vista dos arredores. Pedida para a hora da fome: em um pátio agradável, o restaurante Monika serve frutos do mar e carnes preparados na churrasqueira.

Por Cristiane Sinatura | Revista Viajar pelo Mundo

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